quarta-feira, 24 de maio de 2017

Relato de viagem de Maude Barlow à Suíça tratando do papel da Nestlé e o debate sobre o direito humano à água.


September 21, 2012
Texto original: https://canadians.org/node/3448

Acabo de regressar de uma semana na Suíça para promover o debate sobre direito à água e para desafiar a gigante suíça da água engarrafada Nestlé. Minha visita foi organizada por Franklin Frederick, um ativista e líder na luta global contra a Nestlé Waters, que é do Brasil, mas agora vive e trabalha na Suíça. Franklin é um homem extraordinário. Ele está muito comprometido com a justiça global da água e tem sido uma “pedra no sapato” dos corsários da água por anos. Eu também me reconectei com Rosmarie Bar, uma ex-membro do Parlamento Verde suíço e ex-membro sênior da rede suíça de desenvolvimento, Alliance Sud. Rosmarie e eu trabalhamos juntas para formar um grupo internacional chamado Amigos do Direito à Água e trabalhou por muitos anos para lançar as bases para o reconhecimento deste direito na ONU.
Falei nas universidades de Berna e Lucerna e numa bela igreja de 500 anos localizada no coração de Berna. No magnífico Parlamento suíço com painéis de madeira, também me reuni com uma delegação de deputados de todos os partidos que se comprometeram a proteger a água pública e o direito humano à água. Em todos esses locais, conheci pessoas maravilhosas e empenhadas trabalhando pela justiça econômica e social.
L-R: Barbara Gysi, Cedric Wermuth, Yvonne Feri, Jacques Neyrinck, Maude Barlow, Rosmarie, Balthasar Glättli and Franklin Frederick
No entanto, é muito claro que a Nestlé é uma presença poderosa na Suíça e sua influência nos bastidores do  poder vai fundo. Todo mundo com quem conversei disse isso de uma forma ou de outra. A Suíça não tem lei que limite as doações políticas das corporações, ou que exija transparência no financiamento das campanhas. Dado que o departamento de marketing da Nestlé tem um orçamento anual maior do que a Organização Mundial de Saúde, é amplamente compreendido que a empresa tem grande influência política.
Uma grande preocupação é a parceria que a Agência Federal Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação - SDC – mantem  com a empresa. A Nestlé é membro fundador da recém-formada Swiss Water Partnership, juntamente com grupos da sociedade civil e agências de ajuda, que aconselharão o governo suíço sobre a política de água no Sul Global. O desejo expresso é chegar a um conjunto de "valores compartilhados" para que governos, ONGs e o setor privado promovam políticas comuns e visões de mundo ao dar dinheiro para o desenvolvimento da água, ou o que a SDC chama de "falar com uma só voz". Mas o que é essa voz?
A Nestlé foi uma das primeiras empresas a comercializar água. Na esteira do desastre de Chernobyl, vendo o que ele fez para as reservas de água subterrânea das regiões circunvizinhas, a empresa comprou grandes quantidades de depósitos de água mineral na Suíça. A Nestlé é a maior empresa de água engarrafada do mundo e está vasculhando países de todo o planeta para novos suprimentos de água.
A Nestlé tem promovido consistentemente parcerias público-privadas em que empresas de água privada administram serviços de água com base no lucro. O chefe da empresa, Peter Brabeck-Letmathe, freqüentemente presente na mídia suíça como "Homem da Água", promove repetidamente a plena mercantilização da água (embora depois de muita crítica, admita que os pobres também precisam de água). 1,5% da água do planeta para os direitos humanos, o restante entrando no mercado. A Nestlé também promove cultivos transgênicos, que são usuários vorazes de pesticidas.
Portanto, essas políticas são as que a empresa vai promover para o governo suíço em seu trabalho de desenvolvimento. O país tem um dos melhores sistemas públicos de água em qualquer lugar. A Agência Federal Suíça para o Desenvolvimento e Cooperação defende esta parceria e afirma publicamente que um dos principais objetivos é promover os interesses das empresas suíças de água no estrangeiro.
Mas o que a Nestlé sabe sobre a prestação de serviços de água e saneamento? Nada! Ela está envolvida com esta parceria para ganhar credibilidade e ter o governo suíço abrindo portas para novos mercados privados de água no mundo em desenvolvimento. É a mesma razão pela qual a empresa está profundamente envolvida com o braço de financiamento do Banco Mundial. De fato, Peter Brabeck-Letmathe preside um novo conselho consultivo chamado 2030 Water Resources Group que ajuda a definir modelos de políticas e prioridades para os programas de água e saneamento em todo o mundo.
Este é um desastre em um mundo onde a demanda por água está superando a oferta a uma taxa acelerada. Como diz Wenonah Hauter, da Food and Water Watch, o objetivo da Nestlé é afastar a política do governo de fornecer suprimentos de água municipais públicos para as pessoas e para uma dependência da água engarrafada para fornecer água potável básica. E, claro, trata-se de capitalizar a crise global da água.
É hora de chamar a Nestlé e os governos que fazem parceria com eles. Voltarei logo à base da Nestlé, onde vamos gritar contra este caçador de água malévolo.


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